A canção I Love Rock’n’Roll é um verdadeiro épico do gênero musical. Escrita em 1975 por Alan Merrill e Jake Hooker, quem teve a primeira honra de gravá-la foi a britânica The Arrows, que, apesar de tentar, não conseguiu emplacar a música nos programas de rádio da época. O sucesso viria juntamente com a ascensão da roqueira americana Joan Jett. Depois disso, o famoso refrão “I love rock’n’ roll, so put another dime in the jukebox, baby”, foi parar no repertório de cantores que, até então, não tinham nenhum vínculo com o rock, como a princesinha do pop Britney Spears.
Ok. Não há dúvidas que (quase) todos amam o rock’n’roll. O gênero é muito mais que um ritmo musical. É cultura popular representada através de estilos de vida, momentos históricos, manifestações sociais e muita ousadia. Hoje, quando se comemora o Dia Internacional do Rock, a Editora Nacional lança o livro As Raízes do Rock, do jornalista Florent Mazzolieni, obra que detalha o surgimento do gênero musical a partir de manifestações culturais e da indústria fonográfica.
Se hoje o rock é multicolorido, é porque ele nasceu assim. De acordo com Mazzolieni, suas raízes se encontram no rock and roll e no rockabilly que se definiu nos Estados Unidos e evoluiu do blues e da música country, entre outras influências musicais que ainda incluem o folk, o jazz e a música clássica.
Nos anos posteriores, uma enxurrada de grandes astros arrastaria fãs do mundo inteiro para shows que ficariam marcados para a posteridade. Enquanto os garotos de Liverpool, The Beatles, se debruçavam em um vasto leque de referências das subculturas hippie e psicodélica, o americano Bob Dylan encabeçava o movimento musical do folk e levava a um grande público canções como Blowin’ in the Wind e Masters of War, conhecidas como músicas de protesto. Exemplo que só comprova a grandeza cultural que o ritmo comporta.
O livro também conta toda a evolução cultural dos subgêneros do rock’n’roll. Ao mesmo tempo em que acontecia a revolução musical, outra cultural e comportamental transcorria na mesma proporção. “No mesmo período aparecia a televisão, a população negra lutava por seus direitos e se abolia as fronteiras geográficas e raciais”, conta Mazzolieni. O livro ainda mostra a severa oposição ao gênero e como o rock se moldou aos poucos, frente a um contexto racial delicado.
Rock, indústria e internet
Hoje, com a revolução digital, bandas alternativas tomam conta da cena rock’n’roll. Não é mais necessária a dependência de produtoras musicais, da indústria fonográfica e muito menos das rádios. Quem gosta de rock e quer conhecer novos sons sabe aonde encontrar: na internet. Basta postar o áudio na web ou o download em sites de divulgação e pronto! A música já está na rede e disponível a qualquer hora e em todos os cantos do mundo.
Foi o que aconteceu com vários nomes do rock alternativo, como a banda escocesa Franz Ferdinand, que, apesar de ter conseguido as graças das gravadoras, começou publicando vídeos de shows locais no YouTube. Atualmente é considerada a melhor banda britânica da atualidade e faz shows em todos os lugares do mundo.
Em Goiânia, a banda Ultravespa também é adepta da internet. Com influências de The Kinks, Beatles e Cascavelvets, a banda mescla a levada dos anos 50 e 60 com perversões e refrões grudentos. Formada por goianos, a Ultravespa disponibiliza todas as suas músicas no site, vídeos de shows no YouTube e informações da banda nas redes sociais. Já participou de todos os importantes festivais de rock do Estado, como o Goiânia Noise, o Vaca Amarela e o Bananada.
De acordo com o baixista, Bruno Brocas, a internet tem um papel fundamental nas bandas alternativas. A plataforma é um viés de divulgação de vídeos, das músicas produzidas e até de uma extensão entre o público que curte o som da banda. “Se não fosse a internet, não poderíamos criar o contato entre as pessoas que gostam de ouvir nossas músicas. Todos os sons feitos por nós estão disponíveis para download, os internautas podem comentar e dar sugestões no Facebook e no site e os fãs ficam atentos à nossa agenda.”
Baixar músicas na internet não é ilegal. Há muita canção disponível online que não apenas é gratuita, mas também pode ser localizada com facilidade e sem burlar a lei. E o mais importante: é música que vale a pena ser ouvida.
Essa constatação pode parecer surpreendente depois de tantos processos movidos pela associação das maiores gravadoras, a Recording Industry Association of America (RIAA), contra os fãs que utilizam programas de compartilhamento de arquivos de som. Mas as entrelinhas judiciais dão a entender que os usuários estão sendo processados não por baixarem músicas, mas por exercerem distribuição não-autorizada, ou seja, por deixarem músicas em pastas compartilhadas para serem utilizadas pelos parceiros eletrônicos.
O desespero das gravadoras e produtores musicais começa a ficar visível. Apesar disso, nos últimos três anos, algumas indústrias fonográficas entenderam que o rock deve acompanhar os movimentos sociais e culturais. Eles estão apostando que, se doarem uma ou duas músicas, irão incrementar suas plateias, promover mais espetáculos ao vivo e, no final das contas, vender mais gravações. É pagar para ver.
Goiânia Rock City
A expressão Goiânia Rock City foi criada nos anos 1990, dando nome a algumas festas feitas pelo produtor cultural Fabrício Nobre e pela Monstro Discos. A explosão de bandas, festas, shows e festivais de rock em Goiânia apropriaram o termo, que ficou conhecido nacionalmente. Hoje, os festivais da cidade são famosos em todo o País, a exemplo do Bananada, do Vaca Amarela e do Goiânia Noise.
Um dos maiores exemplos de que na capital do sertanejo quem grita é o rock, é a banda Black Drawing Chalks, que já participou de grandes festivais de música, como o SWU e o Lollapazoola. A ideia de formar a banda surgiu na faculdade de artes. Victor Rocha e Douglas Talentoso fazem parte do estúdio de desenho Bicicleta Sem Freio, daí o nome da banda, que significa “carvões pretos para desenhar.”
Com cinco anos de estrada, e três álbuns lançados, a banda marca forte presença no cenário independente brasileiro tocando ao lado de grandes bandas de rock, como Motorhead, Rage Against The Machine e Nashville Pussy. E não para por aí, o segundo disco do grupo foi eleito pela revista Rolling Stone como o sexto melhor álbum do ano de 2009. Parece muito para a banda que veio de Goiás. Mas eles querem mais. Agora eles partem para festivais internacionais, como o Music Is My Girlfriend, na Argentina e o Canadian Music Week, no Canadá.
É nesse pulsar de sons e gritos que outras bandas surgem para provar que Goiânia é a verdadeira cidade do rock’n’roll. A Cherry Devil, por exemplo, é uma banda goiana de stoner rock que vai direto ao ponto. A sintonia entre os cinco amigos e a paixão pela música resultaram na proposta de um som que convence por sua simplicidade, buscando seu espaço no cenário das atuais bandas do rock nacional.
Segundo a baixista, Camila Ferreira, a história do grupo iniciou-se em 2011, e o grupo ainda tenta criar uma identidade própria. Apesar disso, a roqueira acha que os festivais de música do Estado só estão crescendo. “Há alguns anos, ia aos festivais como o Bananada e sonhava em tocar nos palcos. Hoje, eu já realizei esse sonho e sinto o quanto o rock move as pessoas com a sua força e ousadia. É bom fazer parte disso.” Hoje, no dia mundial do rock, todo mundo vai colocar uma moeda no jukebox e ouvir, sem parar, I Love Rock’n’Roll.