Internos relatam tortura em clínica

Operação, realizada ontem pela Polícia Civil, libertou mais de 70 pessoas que eram mantidas em condições subumanas
Luiz Flávio Mobaroli
Em 12/06/2013, 01:08

A Clínica de Recuperação e Reabilitação Anjos da Luz, que funcionava em Anápolis de forma irregular e mantinha cerca de 70 dependentes de drogas e álcool internados em condições subumanas, foi fechada ontem em operação que durou todo o dia e foi encabeçada por agentes do 6º DP da Polícia Civil. O estabelecimento funcionava em duas chácaras, uma no Jardim Arco Verde e outra no Bairro Santos Dumont, às margens da BR-414, na saída para Corumbá. Seis pessoas foram autuadas em flagrante pelos crimes de sequestro qualificado, tortura e formação de quadrilha. Pelo menos outras três ainda serão indiciadas.

Entre os autuados ontem, estão o médico Sandro Rogério Kaku da Silva, apontado como um dos proprietários do estabelecimento, e o diretor Wilmar Pereira Siqueira, além de Jhonata Costa da Mata, Madson Rodrigo dos Santos Ramos, Thiago Torres da Silva e Almerindo Silva Neves, internos que atuavam como coordenadores. André Rocha, sócio da clínica, não foi localizado durante a operação. Contudo, ele deve se apresentar ainda nesta semana na companhia de advogados, ao delegado Manoel Vanderic Filho, titular do 6º DP e que preside o inquérito. A polícia também procura dois homens identificados apenas como Ranieri e Samir.

O fechamento da Clínica Anjos da Luz é resultado de um trabalho que começou há aproximadamente três meses, quando dois internos conseguiram fugir e relataram à polícia os maus-tratos que sofriam. “Iniciamos a investigação e tivemos a confirmação de que os dependentes eram levados involuntariamente, buscados em casa e à força pelos chamados coordenadores, e que as famílias pagavam, em média, R$ 8 mil pelo tratamento, além de 500 reais por esse resgate. Isso acontecia em todo o território nacional”, relatou Manoel Vanderic.

O delegado contou que o mandado de busca e apreensão foi concedido pela Justiça na segunda-feira e que ontem, durante o seu cumprimento, localizou os internos isolados e vivendo em condições precárias. “Eles afirmaram que não podiam se comunicar com as famílias. Alguns estavam trancados em cômodos pequenos, recebendo medicação para ficar sedados e não oferecer resistência. Não havia acompanhamento médico, psicológico ou psiquiátrico”, esclareceu o titular do 6º DP.

Manoel Vanderic confirmou ainda que a clínica era irregular, não dispunha dos alvarás da prefeitura, dos Bombeiros e da Vigilância Sanitária, tampouco autorização do Ministério Público para funcionar. “Sem contar que a internação involuntária desobedecia todos os requisitos legais, era feita sem critérios, sem laudos psiquiátricos”, comentou. Parte do trabalho, que deveria ser especializado, era feita pelos coordenadores, internos que ganhavam a confiança da direção e eram ‘promovidos’, numa relação que lhes garantia alguns privilégios em troca do compromisso de controlar os demais, ainda que à custa de tortura. Confirmando a violência empregada, foram encontrados pedaços de pau usados como cassetetes, algemas e duas espingardas de pressão.

O delegado explicou que as famílias dos dependentes tomavam conhecimento da Clínica Anjos da Luz, principalmente, por meio da internet. O estabelecimento tinha um site (já retirado do ar) e perfil no Facebook. Eles divulgavam a existência de um serviço com médico, enfermeiros e recreação. Prometiam um tratamento especializado e para apenas 12 internos, mas chegaram a manter mais de 80 no local. “Um interno me relatou que ele foi voluntariamente e que quando ultrapassou o portão um dos coordenadores lhe disse: bem-vindo ao inferno. Ele foi trancafiado, ficou oito dias algemado e recebia altas doses de medicamento para não reagir”, completou.

Durante a qualificação dos indiciados, o delegado Manoel Vanderic apurou que dois dos internos tinham mandados de prisão em aberto de outros Estados. Após os procedimentos legais, eles devem ser encaminhados aos locais de origem dos documentos. O titular do 6º DP disse ainda que faria o levantamento da vida pregressa de todos, autuados e vítimas, para checar se há mais alguém em desacordo com a lei.

Caso similar

Caso recente e semelhante em Goiás foi constatado no dia 9 de maio, com o desencadeamento da Operação Dilúvio, pela Polícia Civil. Duas unidades de uma suposta clínica de recuperação, denominada Vida Nova, foram fechadas em Goiatuba, libertando 83 dependentes que eram submetidos a torturas diversas e condições precárias de vida. Três pessoas foram presas em flagrante.


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