Vinicius Mamede
Mais da metade dos locadores de imóveis, em Goiânia, está acima dos 50 anos. Pessoas que buscam um mercado tradicional e veem na compra dos imóveis a alternativa perfeita para aplicação das economias de uma vida inteira. “São pessoas que gostam de ver o investimento e de tocá-lo”, explica Benjamim Ragonezi, vice-presidente de aluguéis do Sindicato da Habitação do Estado de Goiás (Secovi-GO).
A frase do vice-presidente simboliza bem o ramo de negócios dos aluguéis, que cresce diariamente, assim como a participação de clientes com mais idade. Levantamento feito em junho deste ano pelo Secovi apontava 2.548 imóveis para aluguel na capital – uma expansão de 0,47% frente aos números do mês anterior. Segundo Ragonezi, uma fatia de 60% deste total pertencia a pessoas acima dos 50 anos.
“Para a faixa com idade mais avançada, o imóvel é um investimento que, dificilmente, se perde da noite para o dia”, afirma o vice-presidente da entidade. De acordo com ele, essa faixa vê a compra de casas de uma forma bem diferente em relação a aplicações de risco, como o investimento em papéis da Bolsa de Valores. Até mesmo a poupança tradicional, vista como sem riscos, está em descrédito para esta parcela de clientes.
Ragonezi ainda coloca a valorização constante dos imóveis como maior mérito para o investimento. Ele explica que o rendimento mensal da modalidade pode até não ultrapassar o da poupança, ficando entre 0,7% e 0,8% ao mês, com o retorno do aluguel. Mas, em longo prazo, a história é outra. Diferentemente de outras aplicações, o valor investido em imóveis, além do retorno mensal, fica maior de tempos em tempos com a valorização do bem.
Irene Micheloni, de 70 anos, dedicou o trabalho de uma vida inteira para a compra da casa própria, no Setor Sudoeste, onde mora com a filha Adriana Micheloni, 45, e na construção de dois barracões para aluguel. Com o divórcio há mais de duas décadas, ela conta que precisou lavar muita roupa para fora para sustentar a família e comprar seu imóvel. “Foram mais de 15 anos de trabalho duro para a compra da nossa casa”, reforça ela.
Hoje os 400 reais, que ela ganha com os aluguéis, são um complemento importante para a renda familiar. “Sequer sou aposentada, porque nunca trabalhei com carteira assinada. O que ganho é uma assistência do governo de 510 reais como compensação a uma vida cheia de luta”, lamenta. “É o dinheiro dos aluguéis que me permite comer e continuar com a minha ‘vidinha’”, completa.
PERFIL DOS INVESTIDORES
Ragonezi, que também é proprietário da Castelo Imobiliária, cita que, diferentemente de Irene, a maior parte dos investidores em casas para aluguel possui sempre mais de um imóvel. “São geralmente aposentados em bons cargos, que destinam parte da renda para o investimento em casas de aluguel”, ressalta. Na Imobiliária URBS, a proprietária Angelina Carvalho cita o mesmo perfil dos investidores. “São pessoas que trabalharam durante muitos anos, compraram imóveis e agora buscam rendimento com a locação de seus bens”, reforçou ela.
O vice-presidente do Secovi ainda coloca Goiânia como um novo “eldorado” para os investimentos em imóveis. “Diversos grupos de outros Estados estão investindo em imóveis em Goiânia. Por ser uma cidade relativamente nova, eles visualizam, aqui, um bom potencial de crescimento para este tipo de negócio”, analisaRagonezi.
Apesar do bom investimento em imóveis para alugar, a lucratividade já foi melhor. A facilidade para comprar a própria casa, principalmente após a implantação do programa Minha Casa, Minha Vida, é o motivo principal para a redução dos valores do aluguel.
Apesar da baixa, o reajuste de aluguéis em Goiânia continua acima de vários índices econômicos, o que ainda permite que o investimento seja lucrativo. Dados mais recentes do Secovi apontaram reajuste de 6,59%, em junho passado. No mesmo período, a inflação na capital foi de 3,91%, os custos industriais e de serviços (IGP-M) no Brasil foi de 5,17% e o custo da construção (CUB) em Goiás ficou em 6,11%.
Vice-presidente do Secovi, Benjamim Ragonezi reconhece essa desvalorização. “Antes a média de retorno com o investimento de aluguel era de 1%. Ainda há locais em que o aluguel permite essa lucratividade. Mas, via de regra, a porcentagem é de, no máximo, 0,7%”, destaca. Apesar disso, ele vê esta desvalorização muito mais por causa da grande oferta de imóveis de aluguel do que pela compra de casas pela população de menor renda. “A relação entre oferta e procura também funciona para regular os aluguéis, assim como em todas as operações, em curvas contrárias”, explica.