
» 17/05/2013 | Ainda mais concentrado, crédito rural atinge maior valor em 26 anos
O volume de operações contratadas por produtores e cooperativas no ano passado experimentou crescimento nominal de nada menos do que 22% na comparação com 2011, correspondendo a uma variação real de 15%, descontada a variação do Índice Geral de Preços (IGP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), segundo o mais recente anuário do crédito rural divulgado pelo Banco Central (BC). Em valores atualizados até dezembro do ano passado com base na variação média do IGP, aquelas contratações passaram de R$ 99,751 bilhões para R$ 114,710 bilhões, nível mais elevado em 26 anos.
Ainda em termos reais, as contratações realizadas no ano passado ainda estão 9,6% abaixo dos R$ 126,853 bilhões registrados em 1986 e representam 71,2% dos R$ 161,071 bilhões desembolsados pelo sistema brasileiro de crédito rural em 1979, quando o crédito rural era intensamente subsidiado, com correção monetária “tabelada”, correspondendo em muitos anos apenas à metade da inflação verificada, e juros negativos.
O avanço mais recente não deixa de ser importante, já que demonstra que a crise de endividamento enfrentada pelo campo em meados da década ficou para trás. Além disso, ao contrário do que ocorria nos anos 1970 e 1980, a política de crédito rural passou a incorporar, mais recentemente e ainda timidamente, conceitos preservacionistas, dando alguma prioridade a projetos que envolvam, além da produção de alimentos, a adoção de boas práticas agrícolas e pecuárias, técnicas de proteção do solo e das matas e de preservação de recursos hídricos, num cenário de mudanças climáticas, escassez de água e avanço da desertificação.
A grande desvantagem é que uma parcela crescente do crédito rural tem sido destinada a grandes produtores, à “elite rural”, que tem capacidade para contratar empréstimos de maior valor, destinados à exploração de culturas mais valorizadas no mercado internacional. No ano passado, as operações com valor acima de R$ 300 mil, somando 56.472 contratos (ou 2,13% do total), levantaram R$ 58,055 bilhões, correspondendo a 50,55% de todo o crédito destinado a produtores e cooperativas agrícolas. Para essa faixa específica de tomadores, houve um crescimento de 43,4% no valor contratado, na comparação com 2011, quase o dobro da variação nominal observada para todo o crédito rural, que avançou 22%. Essa variação correspondeu a um incremento de R$ 20,733 bilhões, dos quais R$ 12,252 bilhões foram para essa “elite”, que respondeu assim por 59% do aumento registrado entre 2011 e 2012.
Mais para os maiores
Em 2011, as operações superiores a R$ 300 mil haviam representado 48,67% do crédito rural total, saindo de 45,8% em 2010 e de 42,8% em 2008. Os menores tomadores, com empréstimos de no máximo R$ 60 mil, embora tenham respondido por 88,4% do total de contratos, receberam no ano passado 19,96% dos recursos, abaixo dos 21,06% observados em 2011. Na faixa média, com contratos entre mais de R$ 150 mil a R$ 300 mil, houve crescimento de 20,4%, para R$ 17,030 bilhões.