Vinicius Mamede
Filho de trabalhadores rurais, Marcos Vinícius Fernandes Martins, de 17 anos, largou a escola no ano passado enquanto ainda cursava o quinto ano do ensino fundamental. Assim com ele, diversos outros jovens moradores da zona rural no Brasil desistem dos estudos ainda nas primeiras séries ou sequer são matriculados na escola enquanto crianças. Fazendo com que cheguem à idade adulta sem saber ler e a escrever.
Levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) estima três milhões de jovens analfabetos no campo. Em Goiás, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta mais de sete mil analfabetos entre os 10 e 29 anos na zona rural.
A mãe de Marquinho, a trabalhadora rural Cleonice Fernandes Martins, 42, bem que queria que o filho seguisse os passos do irmão mais velho, que concluiu o ensino médio e hoje trabalha em Goiânia. “Pelejei enquanto pude para ele estudar. Mas depois de repetir muitas vezes no colégio ele decidiu parar”, contou ela. Apesar da insistência da mãe, o garoto, que sempre ajudou o pai na lida com os animais em fazenda a 12 quilômetros da cidade de Varjão, no interior de Goiás, preferiu priorizar o trabalho.
Ali, onde impera o trabalho braçal, a escola se mostra de pouca serventia. Como precisam ajudar os pais no trabalho do campo, os jovens aprendem o serviço e veem a escola como desnecessária. As fazendas continuam como os maiores empregadores, ao menos naquele município, e não exigem diplomas, mas a experiência com o trabalho árduo na roça.
rotina
Professora do Colégio Estadual José Cipriano, no município de Varjão, Libânia Bonfim conta que a rotina cansativa dos jovens e a necessidade deles por dinheiro são as principais causas da evasão escolar. Ela destaca que enquanto crianças e estudando nos períodos da manhã ou tarde a evasão é nula. Porém, quando adolescentes e com a transferência para o período noturno, muitos não prosseguem os estudos.
“Eles levantam muito cedo para ajudar nos afazeres da fazenda e se deitam muito tarde em consequência do estudo a noite”, explica ela. Visivelmente sentida por fazer tal afirmação, ela reconhece que só educação não garante o sustento nos diversos municípios rurais espalhados pelo Brasil. “Eles precisam comer. E o único modo de sustento aqui é ajudando os pais ou prestando serviços em outras propriedades”, destacou ela. O dia de serviço em uma fazenda naquele município é avaliado entre R$ 35 e R$ 50.
Ajudando ocasionalmente nas propriedades vizinhas e com dinheiro para comprar roupas ou ir a cidade participar de festinhas com outros jovens de sua idade, Marquinho conta que já possui o conhecimento necessário para não ser passado para trás e por isso abandonou a escola. De pouca conversa, ele confessou ainda que nunca gostou muito de estudar e que usa o tempo disponível para ganhar dinheiro. Satisfeito com a vida que leva, ele ainda declarou que não pretende trocar a roça onde vive pela cidade.
Transporte
Apesar de não ser problema no município de Varjão – onde peruas e ônibus buscam os alunos nas diversas propriedades dos arredores da cidade –, a secretária da Juventude da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Goiás (Fetaeg), Eliane Rosa, coloca a ausência de política satisfatória de transporte no campo como causa da evasão escolar e do analfabetismo no campo.
Eliane destaca que em muitas regiões os alunos ainda precisam vencer grandes distâncias a pé para chegar até a escola. Em outras, declara que a precariedade no transporte aos alunos culmina até em mortes. De acordo com ela, há pouco tempo um ônibus que seguia rumo a uma escola na região de Minaçu se envolveu em acidente e ocasionou na morte de 12 jovens.
Ela defende que o correto seria fazer rota inversa. “O certo seria levar os professores até o campo e não conduzir os milhares de alunos até as escolas na cidade”, sugere. Ainda de acordo com a secretária, a implantação de escolas na zona rural pode representar inclusive economia do dinheiro público.
Eliane ainda constata que o deslocamento até a cidade por jovens da zona rural os torna mais suscetíveis ao envolvimento com drogas ou más companhias. Ela faz questão de ressaltar que no campo são incomuns o envolvimento dos jovens com drogas ou atividades ilícitas.